Já foi a Cerdeira?
Autoria: Ana Torres

"Já foi a Cerdeira?", perguntou ele em jeito de sugestão.
Nunca tínhamos trocado qualquer palavra, mas já nos havíamos cruzado várias vezes nesse mesmo dia: na pousada onde estávamos hospedados na Lousã, no centro histórico da vila e agora, na Praia Fluvial de Nossa Senhora da Piedade.
À terceira coincidência, já nos considerávamos praticamente conhecidos e logo, resolvemos trocar objetivos de viagem: ele estava empenhado em mostrar Portugal ao filho adolescente, enquanto eu tinha saído da adolescência e estava empenhada em mostrar-me ao mundo. Tinha saído de Lisboa com nada mais do que uma mochila arrumada à pressa, um mapa Michelin, e uma carta de condução pronta a estrear.
"Destino?", questionou ele curioso. Confessei que ainda não tinha decidido, mas que teria de passar pelas aldeias de xisto. Foi assim que, quando dei por mim, estava a passar uma ponte de madeira para entrar numa terra encantada. Primeiras impressões? As casas que subiam as escadarias da encosta verdejante. O regato que ia tocando música à sua passagem pelo fundo do vale. As portas da cor do mar. As janelas tom de cereja, a contrastar com o xisto das paredes (por falar em cereja... sabiam que a origem do nome Cerdeira vem de Cerejeira?)
E aquele silêncio?... um silêncio sem gente! Fez-me pensar que poderia estar num qualquer filme de animação da Disney, onde de repente o povo despertaria de um sono profundo e as ruas se encheriam de pessoas. À exceção de um pormenor: à data, viviam em Cerdeira menos de dez residentes permanentes. Dos moinhos, rebanhos e invasões napoleónicas, tinham restado os caminhos de ardósia aquecidos pelo sol da serra e muitas casas vazias. Contudo, a vida já florescia novamente em pequenos ateliers onde se transformava madeira, barro, e uma vontade de regressar às raízes em arte.
Quanto ao amigo
desconhecido que me levou a visitar Cerdeira? Nunca mais o tornei a ver. Mas
gosto de pensar que um dia, uma filha minha partirá para ver o mundo, e
encontrará um rapaz que regressará ao sítio onde construiu boas memórias com o
pai. Gosto de pensar que se cruzarão três vezes, até ele lhe perguntar: "Já foi
a Cerdeira?".

